sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O Diospireiro e uma Receita de Bolo deDióspiro na Patusca



O Diospireiro

Ando cá intrigado por ver que em português se diz dióspiro, tal e qual como na língua helénica, enquanto em espanhol, italiano, francês, finlandês, sérvio, bósnio, japonês e noutras, se diz caqui. Gostaria de entender a lógica por termos adotado uma palavra diferente da de outros países e assim inicio esta croniqueta para que algum sapiente, eventual leitor dos meus despretensiosos escritos, me venha esclarecer, o que desde já agradeço. Afinal, o exercício de transmitir conhecimentos tem também por objetivo adquirir acrescidos saberes com a certeza de que ninguém sabe tudo. Todos juntos é que sabemos… quase tudo, sendo que o “quase” tende para infinito.

Mas vamos ao que interessa! O dióspiro, ou caqui, ou ainda, persimmon, como proferem ingleses e alemães, é o fruto de uma pequena árvore da família das Ebenaceae, cuja designação científica é Diospyros kaki. Tal árvore, oriunda da China e arredores, era considerada exótica e só nos últimos séculos começou a ser cultivada na Europa e na América. Os navegadores portugueses foram os primeiros europeus a alcançar terras orientais e porventura, talvez também os primeiros a conhecer os dióspiros que os chineses comiam como frutos secos. Daí, no século XVII, algumas alusões aos “figos chineses” que lembrariam, pela forma e sabor, os nossos corriqueiros figos passados.

De acordo com os dados obtidos, a China continua a deter a liderança no que respeita aos Diospyros kaki, com mais de 50% da produção mundial, totalizando mais de 3 milhões de toneladas por ano.

Recordo que, há alguns anos, ao passarmos pela cidade de Xian para visitar o famoso espaço museológico do exército em terracota, o nosso autocarro parou num semáforo e ficou à ilharga de um camião de caixa aberta carregado de dióspiros. Por brincadeira, fizemos sinais às trabalhadoras que seguiam no respetivo camião e uma delas, gentilmente, arremessou-nos um dióspiro.

O diospireiro tem folhas simples, alternas, pecioladas, elípticas ou oblongas, brilhantes e um pouco coriáceas, de cor verde que no outono passam a vermelho e caiem completamente.

As flores são pequenas, brancas amareladas e actinomórficas. A espécie é dioica. As flores femininas são solitárias, mas as masculinas surgem agrupadas em feixes.

Os frutos (dióspiros) formam bagas indeiscentes, endospérmicas, ovaladas com cálice persistente, amarelo-avermelhadas quando amadurecem, ficando na árvore mesmo quando a mesma fica despida de folhagem. Note-se que pode haver frutificação mesmo sem polinização, característica que se chama partenocarpia. Neste caso, o fruto não tem sementes que são uma espécie de pevides castanhas. Em solo bem adubado cada árvore pode fornecer até 100 kg de frutos por ano.

Os dióspiros ainda não amadurecidos são intragáveis devido a conterem uma alta percentagem de tanino. Quando maduros, o tanino vai desaparecendo ficando moles, sumarentos e muito doces.

Os diospireiros apresentam uma enorme biodiversidade devido à capacidade de adaptação em diversas condições ecológicas, originando centenas de cultivares. O grande especialista José Mendes Ferrão na sua obra em três volumes “Fruticultura Tropical”, editada pelo Instituto de Investigação Científica Tropical, menciona, para além da espécie kaki que é a mais conhecida, mais uma trintena de espécies de Diospyros, todas com frutos comestíveis, algumas provenientes de países africanos.

Os dióspiros são ricos em tanino, betacaroteno, vitaminas B e C, potássio, ferro, magnésio, cálcio, fósforo, pectina, mucilagens e hidratos de carbono (frutose e glucose).

Ajudam a combater a hipertensão, o colesterol e as doenças cardiovasculares, melhoram a saúde da pele, dos cabelos e dos ossos,
beneficiam a visão e favorecem o trânsito intestinal.

A madeira de todas as espécies de diospireiro é muito dura (lembremo-nos do seu parentesco com o ébano), atingindo valores elevados, tendo em vista a sua utilidade no fabrico de móveis, tacos para jogos de bilhar, “sticks” de hóquei e de golfe e ferramentas.

Os povos orientais preparam tisanas com as folhas secas do diospireiro graças à existência de polifenóis e ao seu potencial oxidante. Visam assim fortalecer os mecanismos imunitários e combater as doenças degenerativas.

Uma referência final às técnicas de polinização cruzada e de destanização (diminuição do teor de tanino) para reduzir a adstringência dos frutos e responder às exigências do mercado. Crescentemente foram alcançadas novas variedades de frutos mais rijos, com maior durabilidade e doçura.

Por todo o lado, eles acham-se hoje à venda nas grandes e pequenas superfícies comerciais, ao contrário do que acontecia há meio século. Pasme-se para o facto deste humilde cronista ter visto dióspiros, pela primeira vez, quando já tinha a bonita idade de 22 anos.

(fonte: texto da autoria de Miguel Boieiro)

RECEITA NA CATEGORIA DE SOBREMESAS:
Bolo de Dióspiro na Patusca

Ingredientes:

375 g de farinha para bolos
– 250 g de açúcar
– 3 colheres de chá de canela em pó
– 1 colher de chá de sal
– 125 g de dióspiro esmagado com um garfo
– 4 ovos
– 150 ml de óleo

Confeção:

  1. Untar com manteiga e polvilhar com açúcar uma forma para bolo.
  2. Misturar os ingredientes secos num recipiente e os líquidos noutro.
  3. Misturar tudo muito bem e deitar na forma.
  4. Colocar a forma com a massa de bolo dentro da patusca durante cerca de 30 minutos.
  5. Testar a cozedura com a ajuda de um palito.
  6. Deixar arrefecer antes de desenformar.




(fonte: amodadoflavio.pt/2019/09/receita-de-pao-de-diospiro/)

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