quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

"Como estabelecer parcerias com o mundo vegetal" por Miguel Boieiro








O famigerado COVID e a estrita obediência às regras impostas, obrigaram-nos a alterar comportamentos quotidianos e a ficar mais tempo no lar. Mas, há sempre prós e contras, vantagens e desvantagens. Das desvantagens, algumas bem violentas, não vamos falar. Elas têm sido referidas com insistência por muita gente. Vamos apenas mencionar benefícios que, no nosso caso concreto, logramos usufruir.

Prezamos a natureza, a ecologia e o ambiente. Aproveitamos a água da chuva quando cai e o sol quando ele domina. Temos painéis solares para aquecimento de águas e painéis fotovoltaicos para a eletricidade. Dispomos ainda de um singelo forno solar, de fácil manejo, que nos permite cozinhar almoços e jantares, o que tem acontecido praticamente em todo este verão.

A parte arável do quintal não excede 300 m2, mas vejam só, as frutas e os vegetais biológicos que temos conseguido reproduzir e colher em tão exíguo espaço:

Figos (duas qualidades), uvas (três qualidades), morangos , fisális, pêssegos, góji (pela primeira vez), limões, amoras, romãs, medronhos, azeitonas, tomates (cinco qualidades), pimentos, malaguetas, beringelas, beterrabas, rábanos, salsa, aipo, funcho, hortelã vulgar, hortelã-pimenta, hortelã-da-ribeira, milho, feijão, alho-francês, abóboras, curgetes,  couves-galegas, brócolos, acelgas, alcachofras, alfaces, almeirões, espinafres-neozelandeses, batatas, batatas doces, favas, ervilhas, beldroegas, urtigas, chagas, malvas, tupinambos, quenopódio-bom-henrique (conhecem?), stevia (conhecem?), salva, erva-príncipe, arruda, cidrila, losna, borragem, celidónia…

Quem aqui chega, fica visualmente desiludido porque o panorama hortícola não se mostra muito atraente. As plantas estão todas misturadas, em confusão, como é próprio da chamada permacultura. Algumas não é preciso semeá-las, nascem onde querem e escolhem crescer junto das que mais simpatizam, em perfeita sociologia vegetal. É o caso da salsa, do aipo, da beldroega, do espinafre neozelandês, das abóboras, das acelgas, entre outras.

Como o clima é muito seco no verão e o solo é arenoso, torna-se necessário proceder a regas quase diárias, em especial ao cair da noite, para que a humidade permaneça mais tempo na terra. Não se utiliza nenhuma espécie de adubos químicos ou pesticidas. O solo é enriquecido com o composto de tudo o que é biodegradável, estrume dos galináceos, restos da cozinha, cascas de ovos, cascas de bananas, borras de café e de chá, etc. Apenas não se utilizam resíduos de citrinos.

Quando surgem pragas de insetos predadores, chegam as joaninhas para proteger as culturas infestadas de piolhos ou de oídio e a ação das plantas protetoras, como as arrudas. Se necessário, faz-se um chorume com urtigas e borragens que, apesar de mal cheiroso, é muito eficaz.


O que motivou este relato não foi o enaltecimento pessoal ou familiar, ou a mera ostentação narcisista. Pretendemos apenas demonstrar que é possível tirar adequado partido da natureza sem a contrariar e que se pode estabelecer com ela uma verdadeira parceria mutuamente benfazeja.

Sabemos, evidentemente, que estas práticas não são acessíveis a muitos cidadãos, quer porque não dispõem de solo arável, quer por habitarem em andares, quer ainda, porque lhes mingua o tempo disponível, a paciência e o jeito em coisas que implicam sujar as mãos. Todavia, para quem sentir curiosidade e tiver algumas condições, fica aqui este exemplo que visa estimular a poupança dos recursos e o incentivo para o exercício de uma terapia ocupacional extremamente valiosa em tempos de pandemia.



Setembro de 2021

(texto da autoria de Miguel BoieiroVice-presidente da Direção da SPN)







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