quarta-feira, 9 de março de 2022

“Coentros” por Miguel Boieiro

- Conheces o cilantro? Dizem que é uma aromática fantástica!

Estávamos em mais um dos muitos colóquios sobre as PAM (Plantas Aromáticas e Medicinais), para os quais tenho sido assiduamente convidado, e a pergunta vinda daquele amigo deixou-me embaraçado.

- Não! Não conheço, mas olha, não tenho a veleidade de conhecer todas as plantas, nossas irmãs, que connosco coabitam. De resto, é incomensuravelmente mais, mesmo muito mais, as que desconheço!

Respondi contrafeito e logo prometi a mim mesmo, procurar o tal cilantro que, segundo o meu amigo, seria profuso nas regiões temperadas. Concluí que afinal, ele se referia simplesmente ao Coriandrum sativum, ou seja, ao vulgar coentro, cuja utilização é quase quotidiana na nossa cozinha. Cilantro é a designação castelhana que, na maior parte dos países hispânicos americanos, passa a culantro e noutras regiões, a salsa chinesa ou salsa árabe. Para evitar confusões quanto às nomenclaturas, nunca deixo de colocar o nome científico nas minhas toscas croniquetas botânicas. Tais confusões surgem amiúde mesmo que se reproduzam imagens. Neste caso, elas seriam totalmente desnecessárias porque toda a gente conhece os coentros e sabe que coentros e rabanetes vão à mesa do rei, como diz a canção.



Quando falo de coentros, vem-me à memória a visita efetuada à aldeia do Coentral. Alguém conhece esta terra perdida nas serranias da Lousã? E vejam, cá estão, mais uma vez, as plantas a influenciar as toponímias. Ora há duas décadas, se tanto, a Sociedade Portuguesa de Naturalogia decidiu realizar o seu acampamento anual nas imediações de Castanheira-de-Pera, bem no sopé da Serra da Lousã. Fizemos então uma caminhada até aos tradicionais neveiros onde se guardava o gelo que, com muito esforço, chegava à corte e à mesa do rei, o qual, segundo parece, adorava gelados. Depois descemos a serra pela parte sul e descansámos na típica povoação do Coentral que, a despeito do seu atraente casario e de outras agradáveis amenidades urbanas, só contava, na altura, com cerca de cem habitantes. Calhando, hoje ainda terá menos, mas basta-lhe a originalidade do nome para lhe conferir vetusta personalidade.

O Coriandrum sativum, uma das cerca de 3700 espécies que integram a família das Apiaceae, é uma erva tenrinha, prima da salsa, mas com folhas menos brilhantes e mais arredondadas. As flores, assimétricas, surgem no cimo dos delicados ramos quando a planta espiga, brancas e rosadas e são muito aromáticas como aliás, toda a planta. A raiz, esbranquiçada, é alongada e pivotante. As folhas superiores, pendentes nos caules eretos que chegam a atingir meio metro de altura, ficam mais pequenas do que as basais. Por sua vez, as sementes são globulosas, tendo de 3 a 6 mm de diâmetro.



Julga-se que os coentros são nativos da Europa meridional, norte de África e Ásia menor. Eles preferem solos leves e permeáveis dos climas temperados, resistem ao frio mas não suportam ventanias nem encharcamentos.

Têm como principais constituintes, óleo essencial, cálcio, ferro, magnésio, fósforo, potássio, zinco, selénio, betacaroteno, tiamina, niacina e riboflavina. Descobriu-se recentemente que também possuem um álcool com ação antibiótica que atua contra a salmonela, chamado dodecanol.

Eis as suas principais propriedades medicinais: estimulante, antiespasmódica, estomacal, bactericida, carminativa, analgésica e antioxidante. Atenua o risco da diabetes e da obesidade, neutraliza o odor do alho e é útil nas inflamações urinárias. O livro “Guia dos Alimentos Vegetais” de Jean-Claude Rodet, um dos fundadores da Agrobio- Associação Portuguesa de Agricultura Biológica, acrescenta que na Índia os coentros são considerados afrodisíacos e ainda que fazem aumentar as glândulas mamárias, atenuam as enxaquecas e as infeções das mucosas da boca, gengivas e olhos e, em loções e pomadas, reduzem as dores reumáticas.





Na gastronomia, como sabemos é bem grande a sua versatilidade. Para além de servir para guarnecer e alindar os pratos, tornam-se indispensáveis na cozinha indiana (currries, masalas…), na árabe e na etíope, sem esquecer as nossas açordas alentejanas, os pezinhos de coentrada e outros acepipes. Devido ao sabor acre, cítrico e picante das sementes, elas são utilizadas nalguns países para aromatizar o gim, a cerveja e o vinagre. De resto, constituem também um excelente digestivo quando mastigadas após as refeições, aliviando as dores de estômago ocasionadas por comidas pesadas.

No entanto, há pessoas que não gostam de coentros pois acham que têm sabor a sabão (?). Em minha opinião, deveriam provar uma deliciosa sopa confecionada à base de coentros como a que costuma ser servida no Restaurante Alfoz (passe a publicidade). É de comer e chorar por mais!




(texto da autoria de Miguel BoieiroVice-presidente da Direção da SPN) 

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